No Metropolitan Museum of Art, em Nova York, pude ver de perto obras de Vincent van Gogh. Eu já conhecia sua história e suas cartas. Ainda assim, estar diante daquelas pinturas trouxe outra dimensão ao que havia lido. Entre as obras que observei, duas pertenciam ao período em que ele esteve internado em uma instituição psiquiátrica.

Esse é um dos acontecimentos de sua vida que mais me fascinam. Durante aproximadamente um ano de internação, Van Gogh produziu mais de uma centena de pinturas. Algumas das obras pelas quais hoje conhecemos seu trabalho foram realizadas enquanto ele atravessava um período de profunda vulnerabilidade.

Pensei no quanto uma crise pode interferir na maneira como enxergamos aquilo que somos capazes de fazer. Um negócio enfrenta dificuldades, uma relação termina, um projeto deixa de funcionar. Aos poucos, a dúvida sobre aquela situação começa a alcançar outras partes da vida. Questionamos nosso trabalho, nossas escolhas e até a possibilidade de ainda sermos úteis.

A história de Vincent me interessa porque permite olhar com mais cuidado para esse momento. Para isso, é preciso conhecer também o que aconteceu entre as pinturas.

Em 8 de maio de 1889, ele entrou voluntariamente em Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França. Vinha de meses difíceis em Arles, com crises e hospitalizações. A decisão de se internar fazia parte da tentativa de encontrar condições para viver com o que estava enfrentando.

Dias antes, em 3 de maio, escreveu a Theo, seu irmão. Estava arrumando o baú e considerando o que poderia fazer dentro do hospital. Cogitou voltar a desenhar com pena, uma atividade menos dispendiosa, que poderia praticar em diferentes circunstâncias. Também expressou dúvidas sobre sua importância como pintor. Mesmo assim, esperava voltar a produzir.

Essa carta me chama a atenção porque Vincent ainda não conhecia a trajetória que hoje conhecemos. Ele precisava pensar em despesas, materiais e possibilidades concretas de ocupação. Sua obra futura não existia como garantia. Havia o conhecimento que já tinha, as dificuldades daquele momento e uma expectativa de que ainda conseguiria fazer alguma coisa com o que sabia.

No hospital, recebeu um cômodo adicional para trabalhar. Inicialmente, seus motivos estavam nos terrenos da instituição. O jardim passou a fazer parte de sua pintura.

Em 9 de maio, escreveu a Theo e à cunhada, Jo, contando que tinha duas telas em andamento: íris violetas e um arbusto de lilases. Na mesma carta, disse acreditar que havia feito bem em ir para lá. Conviver com outros pacientes estava diminuindo o medo que sentia da doença.

Foi na primeira semana de internação que começou Lírios, hoje pertencente ao Getty Museum, em Los Angeles. Essa pintura é diferente da composição com flores em um vaso que integra o acervo do Met.

Gosto de pensar nesse início a partir do que estava efetivamente disponível. Havia um jardim, materiais, um lugar para trabalhar e um pintor que continuava interessado no que via. As condições de sua vida haviam mudado profundamente. Seu olhar e seu conhecimento da pintura ainda encontravam, em certos períodos, uma possibilidade de expressão.

As cartas também mostram os momentos em que isso deixava de ser possível.

Em agosto, Vincent relatou a Theo que até escrever estava difícil. As crises haviam retornado, e ele estava sem acesso ao cômodo onde pintava. Pediu ao irmão que conversasse com o médico, porque desejava voltar a trabalhar e sofria com a inatividade.

Por volta de 2 de setembro, escreveu: “Ontem voltei a trabalhar um pouco”. Havia começado uma pintura de um campo que via da janela. Não sabia se a melhora duraria. Reconhecia que precisava ter paciência.

Esse “um pouco” me parece tão importante quanto o número de pinturas realizadas naquele ano. Ele nos aproxima da experiência de alguém que retomava uma atividade sem saber quanto conseguiria fazer. A produção que hoje podemos reunir em uma exposição aconteceu entre interrupções, tentativas e períodos de maior estabilidade.

Theo acompanhava tudo isso. Recebia notícias da saúde, discutia pinturas, providenciava materiais e pensava em alternativas para a vida do irmão. Também manifestava preocupação com sua intensidade de trabalho.

Ao mesmo tempo, reconhecia o que Vincent produzia. Em setembro de 1889, escreveu sobre a presença de Lírios no Salão dos Independentes, em Paris, descrevendo-a como “um belo estudo, cheio de ar e vida”. Havia alguém que conhecia suas dificuldades e continuava olhando com atenção para suas realizações.

Ao ler essa correspondência, volto à questão que a visita ao museu trouxe para mim: o que acontece quando uma dificuldade passa a ocupar todo o espaço da nossa percepção?

Uma pessoa pode atravessar um problema profissional e começar a interpretar toda a sua trajetória a partir dele. Anos de experiência, relações construídas e conhecimentos adquiridos passam a parecer irrelevantes diante de algo que não está funcionando agora.

O problema precisa ser reconhecido. Pode haver perdas, limitações e decisões difíceis pela frente. Mas compreender uma situação também exige identificar o que permanece disponível. Se examinamos apenas o que falta, nossa leitura fica incompleta justamente no momento em que precisamos decidir.

Penso em uma empresária que já não encontra sentido na operação que construiu. Talvez esteja exausta com a rotina, preocupada com os resultados ou percebendo que deseja outra forma de trabalhar. Ao dizer que sua experiência perdeu a utilidade, ela reúne questões diferentes em uma única conclusão.

O negócio pode precisar de mudanças. Algumas responsabilidades podem ter se tornado insustentáveis. Seus interesses podem ter mudado. Ainda assim, sua capacidade de negociar, compreender um cliente, coordenar pessoas ou desenvolver um projeto merece ser examinada separadamente. Talvez essas competências possam encontrar outra aplicação. Talvez seja necessário tempo para descobrir qual.

É nesse tipo de investigação que reconheço uma conexão com o trabalho que desenvolvo no Private Advisory.

Quando alguém traz uma situação, procuro compreender tanto a dificuldade quanto o contexto em que ela existe. O que aconteceu? Quais consequências já são concretas? Que recursos permanecem? O que essa pessoa deseja preservar e o que precisa rever?

No Método C.L.A.R.O., começamos pelo cenário e pelo lugar de destino antes de construir alternativas, rota e organização. Essa sequência importa porque podemos nos ocupar intensamente tentando recuperar uma situação sem investigar se ainda queremos voltar a ela.

Durante uma crise, o destino também pode precisar de revisão. A prioridade talvez seja recuperar condições para decidir, reorganizar compromissos ou encontrar uma forma diferente de utilizar a própria experiência. Um próximo passo pode ser pequeno e ainda assim corresponder a uma escolha importante.

A história de Van Gogh não permite transformar criação em dever durante o sofrimento. Houve momentos em que ele não conseguia trabalhar e precisava de cuidados. O valor de uma pessoa tampouco depende do que ela consegue entregar. Essa consideração precisa acompanhar a admiração por suas pinturas.

O que me interessa é a possibilidade de reconhecer que vulnerabilidade e capacidade podem coexistir, embora a expressão dessa capacidade dependa de condições que nem sempre estão presentes. Compreender essas condições exige mais atenção do que simplesmente pedir a alguém que continue.

Também exige pessoas capazes de enxergar além da dificuldade imediata. Nas cartas, Theo participa desse reconhecimento: conversa sobre a doença, mas também sobre cores, materiais, exposições e possibilidades. Vincent continuava sendo seu irmão e um artista cujo trabalho merecia uma resposta.

Quando penso nas obras que vi no Met, é essa dimensão humana que permanece comigo. Conhecemos o valor que aquelas pinturas adquiriram. Vincent, enquanto as realizava, precisava conviver com dúvidas sobre sua saúde, seu trabalho e seu futuro.

Talvez seja por isso que sua história me fascine tanto. Ela me faz considerar com mais cuidado o que uma fase difícil permite concluir sobre uma vida. Diante daquelas pinturas, a pergunta que ficou foi sobre tudo aquilo que ainda pode existir em uma pessoa quando ela própria encontra dificuldade para reconhecer.

Fontes históricas e nota de tradução

As citações das cartas são traduções editoriais da versão inglesa de Vincent van Gogh: The Letters, edição acadêmica do Van Gogh Museum e do Huygens ING.

As instituições apresentam estimativas diferentes para a produção em Saint-Rémy: o Getty menciona quase 130 pinturas; o Met e o Van Gogh Museum, cerca de 150. Por isso, o artigo utiliza “mais de uma centena”.