Durante uma visita ao Pérez Art Museum Miami, parei diante de uma obra de John Baldessari que reproduzia um texto do crítico de arte Clement Greenberg. Greenberg defendia que o julgamento estético acontece na própria experiência. Gostar de uma obra seria algo involuntário, assim como sentir o açúcar doce ou o limão azedo. Podemos tentar explicar nossas preferências, mas não conseguimos simplesmente decidir o que vamos sentir. Aquela ideia me despertou uma pergunta: se não escolhemos nossa primeira reação diante de alguma coisa, até que ponto podemos confiar na interpretação que fazemos dela?
Clement Greenberg, em tradução para o português:
Os julgamentos estéticos se dão e estão contidos na experiência imediata da arte. Eles coincidem com ela; não surgem depois, por meio da reflexão ou do pensamento. Os julgamentos estéticos também são involuntários: você não pode escolher gostar ou não de uma obra de arte, assim como não pode escolher que o açúcar tenha sabor doce ou que os limões tenham sabor azedo. (Se os julgamentos estéticos são relatados honestamente ou não, isso é outra questão.)
Podemos olhar para uma pintura e sentir admiração, indiferença ou desconforto. Não precisamos conhecer o artista, compreender sua técnica ou saber a história daquela obra. A experiência acontece antes de qualquer explicação. Mas imagine que, algum tempo depois, você descubra as circunstâncias em que aquela pintura foi produzida. Conheça a vida do artista, compreenda suas referências e reconheça detalhes que antes passaram despercebidos. Ao reencontrá-la, talvez você passe a admirá-la. Talvez continue sem gostar. Mas dificilmente estará diante dela da mesma maneira. A pintura permanece a mesma. Você, não.
Essa diferença me parece importante porque revela algo sobre a natureza das nossas percepções: aquilo que sentimos em determinado momento pode ser verdadeiro sem representar tudo o que existe para compreender. A primeira experiência não precisa ser invalidada pela segunda. Ambas podem ser legítimas, embora tenham sido construídas a partir de conhecimentos diferentes. Pensei em quantas vezes isso acontece na vida. Podemos ler um livro aos vinte anos e reencontrá-lo aos quarenta, descobrindo nas mesmas páginas significados que antes não conseguíamos alcançar. Podemos ouvir a história de alguém e considerá-la incompreensível, até que uma experiência pessoal nos permita reconhecer uma complexidade que desconhecíamos. Em certas situações, os fatos permanecem exatamente onde estavam. O que se transforma é nossa capacidade de compreendê-los. E existe uma consequência particularmente interessante nisso: raramente sabemos, no momento em que formamos uma opinião, quanto ainda desconhecemos sobre aquilo que estamos julgando.
Continuando minha visita, encontrei outra obra de Baldessari, Tetrad Series: What Was Seen. A composição reunia imagens aparentemente desconexas: uma camisa vermelha, uma referência a Goya, uma cena cinematográfica e palavras que remetiam àquilo que foi visto. O título me chamou a atenção. What Was Seen. O que foi visto. Parece uma questão objetiva. Duas pessoas diante da mesma imagem deveriam, em princípio, conseguir descrever aquilo que estão observando. Mas será que realmente veem a mesma coisa?
A obra também me fez recordar uma passagem de Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, em que a experiência interior se aproxima daquilo que conseguimos perceber do mundo.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego. Texto em português, edição de Richard Zenith, Arquivo LdoD.
Alguém familiarizado com a história da arte pode reconhecer imediatamente a referência a Goya. Uma pessoa apaixonada por cinema talvez identifique a cena de Hitchcock. Outra pode se interessar pelas cores, pela camisa vermelha ou pela estranheza daquela combinação. Cada observador encontra algo que seu repertório lhe permite reconhecer. Isso não significa que qualquer interpretação seja igualmente correta. Existem referências concretas, informações verificáveis e elementos que independem da opinião de quem observa. Entretanto, nossa capacidade de reconhecê-los não é ilimitada. Podemos olhar atentamente para alguma coisa e ainda assim deixar de perceber justamente aquilo que seria essencial para compreendê-la.
Foi nesse ponto que comecei a pensar em algo que ultrapassava a experiência estética. Quando observamos uma situação, nossa mente não trabalha apenas com os acontecimentos. Ela estabelece relações, recupera lembranças, reconhece padrões e atribui significados. A experiência acumulada nos ajuda a interpretar a realidade. Mas também influencia aquilo que esperamos encontrar nela. Às vezes, uma atitude nos parece desrespeitosa porque já conhecemos situações semelhantes. Uma ausência pode ser interpretada como rejeição. Uma resposta breve pode parecer indiferença. O desconforto que sentimos é real. A interpretação que fazemos de sua causa, entretanto, ainda pode estar incompleta.
E quanto mais pessoal for a experiência, mais difícil pode ser reconhecer essa possibilidade. Nossas certezas frequentemente estão associadas à nossa história. Questioná-las pode exigir que reconsideremos acontecimentos, decisões e até a imagem que construímos de nós mesmos. Por isso, talvez seja mais fácil reconhecer a própria ignorância diante de um assunto desconhecido do que admitir a possibilidade de estarmos equivocados sobre algo que acreditamos conhecer profundamente. Há uma diferença entre ter razões para acreditar em alguma coisa e possuir todas as informações necessárias para compreendê-la. Nem sempre conseguimos perceber essa distância. E a intensidade da nossa convicção não diminui necessariamente o tamanho dela.
Isso também não significa que devemos desconfiar de todas as nossas percepções. Algumas são precisas justamente porque aprendemos, ao longo da vida, a reconhecer sinais que antes não compreenderíamos. O conhecimento pode tornar nosso julgamento mais confiável. Mas existe uma maturidade particular em reconhecer que até uma percepção bem fundamentada pode ser examinada diante de novas informações.
Voltei mentalmente à primeira obra. Greenberg me fez pensar na honestidade das nossas reações. Não precisamos fingir admiração por algo que não nos comove. Podemos reconhecer o valor de uma obra sem necessariamente gostar dela. A segunda obra me levou a outra questão: quanto daquilo que acreditamos ter visto depende do que já éramos capazes de reconhecer? Juntas, as duas experiências me fizeram considerar a relação entre aquilo que sentimos, aquilo que percebemos e aquilo que concluímos. São processos profundamente relacionados, mas não idênticos. Talvez seja justamente nessa distinção que exista espaço para uma forma mais cuidadosa de pensar.
Podemos reconhecer um sentimento sem transformá-lo imediatamente em uma explicação definitiva. Podemos confiar na experiência acumulada sem presumir que ela nos tornou capazes de enxergar todas as perspectivas. Podemos sustentar convicções e, ainda assim, permanecer disponíveis para examiná-las. Reconsiderar uma opinião não significa necessariamente abandoná-la. Algumas certezas se fortalecem quando confrontadas com novas informações. Outras se revelam insuficientes. O importante é que ambas tenham a oportunidade de ser examinadas.
Isso exige alguma disposição para conviver com a incerteza. Afinal, uma explicação familiar oferece conforto, mesmo quando não contempla toda a complexidade de uma situação. Talvez por isso seja tão difícil voltar a olhar para aquilo que acreditamos já ter compreendido. Às vezes, permanecemos anos sustentando uma interpretação sobre uma experiência vivida. Ela parece coerente, corresponde ao que sentimos e organiza perfeitamente nossa memória dos acontecimentos. Até que uma conversa, uma leitura ou uma experiência posterior nos apresenta uma possibilidade que nunca havíamos considerado. O passado não se altera. Mas a maneira como o compreendemos pode mudar profundamente. E essa mudança pode alcançar nossas decisões presentes, nossas relações e a forma como contamos nossa própria história.
Ao sair do museu, fiquei pensando em quantas certezas sustentamos sem perceber as perguntas que ainda não fizemos. Não acredito que seja possível viver questionando permanentemente tudo. Precisamos decidir, agir e confiar no conhecimento que construímos. A vida raramente oferece informações completas antes de exigir uma escolha. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer os limites do próprio conhecimento e ignorar que esses limites existem.
Talvez a pergunta mais relevante não seja quantas vezes estivemos certos ou errados, mas quantas vezes estivemos verdadeiramente dispostos a descobrir. Porque há algo profundamente transformador no momento em que percebemos que nossa compreensão de uma situação era menor do que imaginávamos. O que antes parecia evidente ganha outras dimensões. O que julgávamos conhecer revela aspectos inesperados. E aquilo que parecia uma conclusão definitiva pode se tornar o início de uma investigação mais cuidadosa.
Talvez uma das maiores expressões de maturidade intelectual seja conseguir olhar novamente para aquilo que já vimos, sem exigir que a realidade confirme a interpretação que fizemos da primeira vez. Afinal, nem tudo o que deixamos de enxergar estava escondido. Algumas coisas sempre estiveram diante de nós. Ainda não sabíamos como vê-las.