O rei havia dado uma ordem. A rainha não veio.

No primeiro capítulo de Ester, Assuero recebe a notícia de que Vasti se recusou a atender ao seu chamado. O texto descreve sua ira. Em seguida, registra um gesto que me chamou a atenção durante a leitura: o rei consulta os sábios que conheciam as leis e entendiam dos tempos.

Ele pergunta o que deveria ser feito, segundo a lei.

Foi ali que minha reflexão começou.

Aquele homem ocupava a posição de maior autoridade no reino. Ainda assim, o conhecimento de outras pessoas fazia parte da maneira como os assuntos eram tratados. Havia homens a quem ele recorria, pessoas que tinham acesso à sua presença e participavam do exame das questões que chegavam até ele.

Enxergo sabedoria nesse gesto de consultar. Quem tem a responsabilidade de decidir pode reconhecer que precisa de outros conhecimentos para compreender aquilo sobre o que vai decidir.

Continuei pensando nisso depois da leitura. Conheço a exigência de conduzir um negócio, de responder por compromissos e de precisar encontrar uma saída quando alguma coisa não acontece como o esperado. Entendo como a experiência de resolver pode, aos poucos, alimentar a expectativa de conseguir resolver sempre.

Uma pessoa começa uma empresa e aprende quase tudo enquanto faz. Negocia com fornecedores, atende clientes, administra o dinheiro, contrata, corrige erros. Durante muito tempo, as respostas precisam sair dela porque há pouca gente com quem dividir as perguntas.

O negócio cresce. Chegam colaboradores, parceiros e oportunidades maiores. A pessoa continua sendo procurada quando alguém não sabe o que fazer.

É fácil se acostumar a esse lugar.

A experiência permite reconhecer situações, antecipar dificuldades e decidir com mais rapidez. Também pode criar uma resistência discreta a dizer: ainda preciso compreender melhor.

Lendo sobre o rei, fiquei pensando em quantas vezes confundimos a responsabilidade por uma decisão com a obrigação de produzir, sozinhos, todo o conhecimento necessário para tomá-la. Uma escolha pode ser nossa e, ao mesmo tempo, exigir informações, perguntas e perspectivas que ainda não temos.

A descrição daqueles conselheiros também me chamou a atenção. Eles conheciam a lei e o direito, e o texto os apresenta como homens que entendiam dos tempos. Na minha leitura, essa combinação chama a atenção para o valor de considerar tanto o conhecimento quanto o contexto em que ele será aplicado.

Essa é uma exigência muito concreta na vida de quem empreende.

Imagine uma empresária que recebe uma proposta para abrir uma operação em outra cidade. O possível parceiro conhece o mercado, o imóvel parece adequado e as primeiras projeções são animadoras. Ela começa a pesquisar fornecedores, calcular o investimento e imaginar o negócio funcionando.

A oportunidade ganha forma antes que algumas perguntas encontrem lugar na conversa.

Quem conduzirá a empresa atual durante sua ausência? Quanto tempo a nova operação pode levar para se sustentar? O dinheiro que será investido está realmente disponível ou também protege os compromissos que ela já assumiu?

Até ali, a empresária vinha pensando principalmente no que poderia construir. Ao examinar essas questões, percebe que precisa decidir também o que consegue sustentar enquanto constrói.

A expansão pode continuar fazendo sentido. Talvez exija outra sequência: preparar a equipe, testar a demanda, negociar condições diferentes ou começar com uma estrutura menor. Uma conversa bem conduzida pode ajudá-la a enxergar essas possibilidades antes que a assinatura de um contrato transforme uma ideia em obrigação.

Penso no valor de ter alguém capaz de acompanhar esse raciocínio com atenção. Alguém que compreenda o que eu quero fazer, procure entender minhas razões e tenha liberdade para perguntar sobre o que ficou de fora.

Há decisões em que dinheiro, tempo, trabalho e relações se encontram. Uma resposta adequada para uma dessas partes pode criar uma dificuldade em outra. A oportunidade profissional pode ser excelente e exigir uma reorganização familiar importante. Um projeto pode caber no orçamento e consumir uma disponibilidade que eu já comprometi.

É nesse encontro de variáveis que situo o Private Advisory. A pessoa traz uma situação concreta; eu escuto, faço perguntas, questiono premissas e compartilho minha leitura. O trabalho ganha profundidade quando conseguimos compreender o que está em jogo para além da primeira forma como o problema foi apresentado.

Isso também depende da disposição de quem procura aconselhamento. Posso chegar a uma conversa tão comprometida com uma resposta que toda pergunta me pareça um obstáculo. Posso querer uma avaliação e, ao mesmo tempo, torcer para que nada importante precise ser revisto.

Reconhecer essa expectativa já abre espaço para uma conversa mais honesta. Posso dizer o que desejo, explicar o que me preocupa e admitir quais informações ainda não tenho. Quem me ouve passa a conhecer melhor a situação sobre a qual está sendo convidado a opinar.

A história de Ester também me lembra de examinar a qualidade desse conselho. O desfecho afasta Vasti e amplia o episódio para uma determinação dirigida ao reino. Por isso, a sabedoria que reconheço no gesto de consultar vem acompanhada de uma responsabilidade: avaliar o que está sendo recomendado, seus fundamentos e suas consequências. Ter conselheiros, por si só, não assegura uma decisão justa.

Quem aconselha precisa ter condições de contribuir e reconhecer os limites do próprio conhecimento. Quem decide continua responsável por considerar o conselho. É uma relação que pede discernimento dos dois lados.

Volto, então, ao detalhe que me fez prestar atenção naquela leitura. Na presença de pessoas que conheciam as leis e os assuntos do reino, o rei fez uma pergunta.

A cena permanece comigo porque penso em tudo o que uma pergunta permite quando ainda existe tempo para ouvir a resposta: descobrir uma condição ignorada, perceber uma consequência, reconsiderar um caminho ou avançar com mais clareza sobre o que se está assumindo.

Na próxima vez que eu estiver diante de uma escolha importante, quero me lembrar de reservar esse espaço. Levar a questão a quem possa contribuir. Expor também minhas dúvidas. Ouvir com atenção suficiente para que a conversa possa mudar alguma coisa.

A decisão continuará sendo minha. Quero chegar a ela tendo compreendido melhor o que tenho nas mãos.

Referência

Ester 1:12–22. Almeida Revista e Atualizada. A reflexão parte do gesto de consultar descrito nos versículos 13 a 15 e considera o desfecho do capítulo.